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Você já se perguntou o que significa SER homem? não? pois é, nós sim! fizemos isso no encontro do dia 26-09-19 do nosso Grupo de Estudos Críticos sobre o Machismo... para saber um pouco mais sobre isso, fomos ao dicionário, para ver o que "SER" hom
“O que é ser homem?”
Observatório do Machismo – encontro de 26-09-19
Prof. Dr. Helio Hintze
Você precisa é de um homem
Pra chamar de seu
Mesmo que esse homem seja eu...
Erasmo ‘Tremendão’ Carlos
No encontro de 26-09-19 do Observatório do Machismo dialogamos a partir do tema “O que é ser homem?”. Contamos com a presença de 6 pessoas. E, assim, pudemos investigar coisas interessantíssimas, sempre dialogando nosso senso comum com as provocações da filosofia e das ciências sociais.
Buscamos investigar o que significa a pergunta “O que é ser homem?” e que ‘respostas’ ela pode nos dar... Para tanto, colocamo-nos anteriormente a esse questionamento, buscando responder a uma pergunta mais primária: “o que é ser?” – é isso que dá ser filósofo...
Pudemos compreender ali que ‘ser homem’ tinha a ver com a ‘identidade’ de ser homem, dos elementos que compõem a ideia de homem. Partimos da premissa de ‘ser’ como significado predicativo, analisando então, a questão da ‘identidade’ ... A pergunta “o que é ser homem?” nos orientou a buscar quais são os elementos que podemos, por assim dizer, inerentes, natos, essenciais à ideia de ‘ser homem’. Foi assim que surgiu a ideia de ‘identidade’... Importante: a pergunta “O que é ser homem?” é uma questão inquestionável até agora. Não se fazia essa pergunta frente à sua evidência natural: mesmo sem pergunta, ‘todos’ sabem o que é ser homem em nossa sociedade. E isso é fruto do nosso principal processo a ser investigado, a saber, a naturalização das ideias sociais.
Passamos, então, a uma investigação inicial sobre a ideia de homem, perguntando aos presentes sobre o tema... as respostas poderiam ser dadas em diversas direções: o que eu acho que é um homem; o que dizem que é preciso para ser homem; ou aquilo que eu tenho ‘certeza’ que compõe um homem (notemos que são possibilidades de interpretação para a pergunta norteadora de nosso encontro – essas, dentre muitas outras)... por meio deste diálogo inicial, chegamos a alguns predicativos: ‘provedor’ foi a primeira palavra (vinda da cabeça de mais de uma pessoa), depois valente, não leva desaforo para casa; não chora; tem força física; é macho (animal, instintivo, selvagem); é viril; dominador e racional (no sentido de fazer uso da razão). Será que aqui já dá para percebermos uma primeira complexidade no encontro das ideias: por um lado ele, o homem, é ‘animal’, ‘instintivo’ e ‘selvagem’ e, por outro, ele é racional – não há nada melhor para organizar justificativas de diversas matizes do que tem um conceito confuso e contraditório. Peço a quem me lê que vá tentando imaginar frases ou justificativas usadas em nosso dia a dia sobre a questão do ‘ser’ homem. Essa primeira rodada de ‘lugares comuns’ sobre o que é ‘ser’ homem nos possibilitou levantar um rápido panorama da matéria.
Em nosso segundo movimento fomos ao dicionário Houaiss da Língua Portuguesa e buscamos palavras do campo semântico de ‘homem’. A partir da busca em ‘homem’, o próprio dicionário nos remetia aos outros verbetes, assim analisamos os verbetes: homem, hombridade, masculino, masculinidade, másculo, macho, viril, varão, varonil. Cada um destes verbetes traz informações importantes para percebermos a ‘identidade’ do ‘homem’ apresentada pelo dicionário (breve nota metodológica: optamos pelo dicionário, pois ele é uma fonte de consulta cotidiana – de certa forma ele apresenta o senso comum da sociedade no sentido das palavras – sabemos que ele não apresenta o significado total dos conceitos e que é fonte limitada, mas nosso estudo está em progresso, e essa é a fonte de evidências usada para esta atividade específica, outras fontes serão, por nós, investigadas ao longo de nossos estudos).
Lembrando que buscamos pistas para entendermos o que é ‘ser’ homem, vamos a algumas curiosidades vindas da análise crítica dos verbetes:
Grosso modo, nesta análise inicial do dicionário podemos fazer uma síntese de atributos que estão reincidentemente sendo apresentados como ‘próprios’ do ‘homem’:
O homem é um ‘ser’ traz consigo características como arrojado, corajoso, destemido, determinação, digno de respeito, energia, esforçado, força, ilustre, intrépido, masculinidade, masculino, másculo, poderoso, potência, valoroso, varonil, venerável, tem vigor sexual, vigoroso, viril, tem virilidade e é viripotente.
Esses predicativos são apresentados reincidentemente como qualidades consideradas próprias do que é ‘ser homem’. As palavras são do próprio dicionário. Apontados, muitas vezes, como que por ‘Derivação: por extensão de sentido’. De pronto, parece que o dicionário representa boa parte do ‘imaginário’ do senso comum sobre o que é ser homem, lingando esse ‘ser’ a diversos valores – todos eles afirmativos e positivos do ponto de vista do senso comum. São verdadeiros elogios ao ‘ser homem’ elogios compositivos, ou seja, a essência, as qualidades consideradas próprias do homem são (auto) elogiantes.
Ora, se essas características são ‘próprias’ do homem, será que elas estão em todos os ‘homens’? Será que, se encontrarmos um ‘homem’ que não tenha tal ou qual característica, ele será ‘menos’ homem que outros que as apresentam?
Se elas são ‘dados da natureza do homem’, se são características que lhes são próprias elas se manifestarão espontaneamente ou será preciso ensinar a manifestá-las? Se é preciso ensinar, por que alguns ‘não as manifestam’ ou ainda ‘não aprendem’ a ‘ser’ homens?
E, disso, desdobramos uma importante questão: qual é o papel da educação na criação e na manutenção destes predicativos nas futuras gerações? Como esses predicativos influenciam a educação de nossas crianças: a dos meninos, e, por conseguinte, a das meninas? Se estes valores masculinos valem para os meninos, como são formados os valores que ‘definem’ as meninas?
Podemos identificar a presença destas ideias naturalizadas na forma (formal, não formal) como educamos as crianças?
O que buscamos com isso é realizar o exercício da desnaturalização radical destes elementos. O dicionário aponta para uma essência do que é ‘ser’ homem; reflexo de nossa cultura. O mecanismo da naturalização busca apresentar como ‘naturais’ do ‘homem’ algumas características que, entendemos, são socialmente construídas. Disso, desdobramos outra característica a ser investigada.
Surge nossa hipótese de trabalho: a ‘naturalização’ traz consigo uma ‘hierarquização’, pois a partir dos atributos elogiosos do que é ser homem, produzem-se as ideias do que é ser ‘mulher’ do que é ‘não ser’ homem, para o caso dos ‘homens’ que não apresentam todos esses atributos. Naturalização que traz uma hierarquização – colocando o ‘masculino’ como polo principal de definição dos valores aceitáveis da hierarquia. Hierarquização que constitui o projeto pedagógico de normalizações sociais: a construção dos papeis sociais relativos a ‘gênero’, entendemos, é fruto desta estrutura naturalizada-hierarquizada que coloca o masculino como sendo o polo definidor do que é valoroso.
Este é o ponto que chegamos hoje!!!! Mais reflexões virão!
Prof. Dr. Helio Hintze
www.observatoriodomachismo.com.br
Escrito em 27-09-19
Postado em 20-10-19 (Revisado por Samira Maroun - a quem agradeço a imensa gentileza)
Educador e Filósofo / Palestrante e Consultor do Projeto Fazer Pensar da Usina do Conhecimento Educador do Projeto Sabores & Saberes: Educação para o Gosto Consultor Associado GKS Consultoria Atuou como Professor Universitário em diversas Universidades: UFSCAR - Sorocaba, UNIMEP Piracicaba, SENAC, Uniararas
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